O vídeo de Nikolas Ferreira sobre o “PixGate” foi, provavelmente, uma das peças mais relevantes da comunicação política brasileira nos últimos anos. Deveria ser objeto de análise e pesquisa em universidades e centros de estudo.
A quantidade de views e seu sucesso viral representam apenas a ponta do iceberg desse novo estilo comunicacional. Dissecar os códigos e nuances da construção e repercussão obtida é fundamental para entendermos esta nova linguagem, essa nova trama entre palavras e imagens que deu como resultado um sucesso ímpar.
O Plaza Publica Brasil* fez um primeiro levantamento qualitativo sobre o assunto. Uma primeira abordagem para começar a jogar luz nesse fenômeno. Parafraseando Spinoza, comunicação é “conteúdo + tom afetivo”. A batalha vencida com o vídeo do Deputado Nikolas Ferreira acerta em ambos os aspectos, mas principalmente na capacidade de mobilizar emocionalmente o cidadão comum, aquele brasileiro de “carne e osso” que está longe das disputas intelectuais e técnicas.
Os grupos de discussão qualitativos constatam alguns elementos já mencionados por outros analistas (estilo direto, linguagem simples), mas revelam um ponto chave do vídeo: as metáforas visuais utilizadas na edição das falas têm um peso crítico na cristalização das ideias. Duas delas são emblemáticas: as imagens dos feirantes utilizando o PIX, como sujeitos possíveis de serem taxados, e aquelas que mostram as enchentes, como constatação da falta de serviços não entregues pelo poder público. Na comunicação, esses trechos sedimentam, a partir do bombardeio constante e sincrônico de imagens, os riscos e as ausências que podem estar presentes nas medidas propostas.
Ao fim do dia, o vídeo martelou sobre uma ideia nova, a hipótese não comprovada de um imposto futuro, mas sobretudo, cavalga sobre ideias anteriores, já presentes nas mentes das pessoas e que são ativadas na ocasião: despesas monitoradas para todos e ocultamento para alguns, promessas de não taxar, como no caso das “blusinhas” online, mas que tempos depois foram tributadas.
Ao todo, a história PIX tem duas narrativas observadas na pesquisa qualitativa: uma primeira, mais instantânea e crua, associada à “maluquice de querer taxar o povo…”, inserida no contexto de que o PIX beneficia o cidadão comum ainda não bancarizado e, sobretudo, o protegeria de uma vigilância tributária compulsória.
E outra narrativa, mais elaborada e assimilada, que se sustenta na “Idea de monitoramento das contas…” que já existia, mas que agora passaria a ampliar os limites.
Em ambas as leituras, mas sobretudo na segunda, existe a percepção que todo o “burburinho” cresceu no vácuo que o governo deixou. Em informações incompletas que foram passadas sem saber exatamente as implicâncias que teriam para as pessoas. Foi justamente nesse vácuo que o vídeo entrou para preencher de sentido estas lacunas, pode se dizer que de forma interessada e maliciosa.
O assunto pode ser um importante issue para ancorar uma história negativa do governo, sendo não apenas a principal derrota comunicacional, mas sobretudo, o disparador que deixa um ar rarefeito sobre a situação do país. Embora ninguém tenha mudado radicalmente de comportamento, esse ar contaminado leva as pessoas a tomar precauções concretas: receber em 2 contas, separar seus ingressos PF e PJ, pensar em receber apenas por meio de dinheiro… “se abrir o caminho para a taxação é uma roleta russa…”.
No final das contas, o PIX, funciona no dia a dia das pessoas como uma plataforma simples, descomplicada em pagamentos instantâneos, mas que trabalha com o simbolismo de “ajudar ao povo” a transacionar sem necessariamente deixar rastros que possam ser monitorados.