Tendências, profundidade, antecipação

Paulo Cidade

Acompanhar o cenário político, econômico e social por meio apenas de levantamentos quantitativos não significa necessariamente ter uma compreensão mais profunda da dinâmica dos fenômenos sociais que precisamos acompanhar. Além de observarmos certas tendencias é desejável mergulharmos na gênese dos elementos que levam pessoas e grupos sociais a tomarem determinadas decisões.

Esse quadro é particularmente mais visível quando consideramos os cenários políticos eleitorais. É comum vermos, quando da divulgação de pesquisas com movimentações significativas em alguns indicadores, a dificuldade de analistas e jornalistas para explicarem possíveis causas de tais variações. Muitas vezes, parecem recorrer aleatoriamente a decisões e falas de políticos ocorridas no período, mas sem estabelecer necessariamente algum tipo de correlação. Nesse sentido é que a complementariedade entre a avaliação do enorme número de levantamentos quantitativos complementado por um monitoramento qualitativo se faz necessário.

Continuando no exemplo do estudo de cenários políticos eleitorais, sabemos que há uma série de teorias e modelos desenvolvidos ao longo de muitos anos, como: teoria psicológica de explicação do modelo político (Modelo de Michigan); modelo de explicação teórico-contextual (baseado em teorias sociológicas e economicistas); teoria da escolha racional entre outros, mas a qualidade de operacionalização e interpretação da aplicação destes modelos no contexto atual é um grande desafio.

Podemos observar um pouco dessa dificuldade no caso da teoria da agenda setting, onde dois aspectos importantes no modelo passam atualmente por grandes transformações: timming da disseminação de informações e a quantidade de agentes participantes do processo.

Quando essa teoria, que foi desenvolvida nos anos 70, colocava que era necessário considerar um elemento novo de “relevância” para potencializar o controle de temas que seriam discutidos publicamente, a perspectiva de tempo era completamente diferente da atual. As rádios repercutiam muito os jornais impressos do dia anterior, se pautavam também por meio de entrevistas e âncoras famosos que introduziam assuntos que poderiam ser desenvolvidos e repercutidos nos jornais impressos do dia seguinte ou nos telejornais noturnos. Esse timming não existe mais. Há divulgações, vídeos, tuites, posts etc. que são disparados a qualquer tempo e cuja repercussão é instantânea na guerra das redes (não necessariamente na vida real). O que significa hoje o “controle de agenda”? Qual cobertura é a possível, necessária, mínima e ideal? Quais são os vetores que podem impulsionar as agendas?

Ainda em relação à agenda setting, outro ponto importante é a quantidade de agentes (players) com papel relevante quando falamos de impacto quantitativo, com escala. Até poucos anos atrás, havia listas dos principais veículos e jornalistas influentes que caberiam em 2 ou 3 páginas. Ao se atingir estes grupos se cobria de 60 a 80% do espectro daqueles que controlavam a divulgação de notícias em larga escala. Hoje há uma pulverização enorme em praticamente milhares de agentes que conseguem viralizar uma “notícia” com muita rapidez.

Muitos analistas e comentadores ainda usam vários destes conceitos de forma descontextualizada. Diversos pressupostos destes modelos continuam válidos, mas precisam ser ressignificados à luz da nova dinâmica de certos fenômenos que afetam principalmente a população. Hoje uma questão crucial não é mais a ideia de mudança, mas sim as medidas de velocidade com que ocorrem. O próprio conceito de geração já mudou, antes uma geração e mudanças de gerações eram consideradas em cerca de 25 anos e agora se considera 10 anos.

A ciência humana tem esse instigante desafio: os métodos e técnicas de se estudar o comportamento mudam e o objeto (visões e configurações de relacionamentos) também. Na medicina mudam as técnicas, mas o corpo é o mesmo.

Esse é um dos desafios que a Plaza Pública se propõe a enfrentar: pensar e repensar a operacionalização e interpretação de modelos. Analisar diferenciais que os múltiplos levantamentos quantitativos podem não estar captando junto à população. Identificar quais segmentações podem ser mais relevantes para determinados tipos de negócios e decisões.

Voltando ao nosso exemplo de cenários políticos, o que podemos observar hoje no Brasil, é que não há um direcionamento simbólico sobre o que está acontecendo e sobre como o governo, ou outros agentes, deve se apropriar ou se afastar de determinadas linhas. Está difícil se afastar dos fracassos e para aspectos positivos não se consegue uma aproximação ou apropriação (por exemplo: emprego).

O impacto residual que o contexto atual está deixando nas pessoas ainda não é totalmente conhecido. Mas ele está lá. Possivelmente há um conjunto de novas variáveis culturais que estão atuando na formação de um novo ethos com uma constituição e gatilhos muito variados e complexos. Nesse sentido, é provável que a questão econômica continue com um bom peso influenciando, por exemplo, processos de decisão eleitoral, mas mesmo se persistir essa importância, ela será combinada com novos fatores, diminuindo-os ou potencializando-os.

*Plaza Publica Brasil é um barômetro qualitativo bimestral realizado de forma conjunta por Eduardo Sincofsky e Paulo Cidade