A figura de Javer Milei repercute no público brasileiro. Seja como reflexo para alguns do que se deseja, seja como crítica e distanciamento para várias manifestações. Para muitos, ele é o personagem de que o Brasil precisa para cortar gastos públicos (especialmente com publicidade). Para alguns, ele representa o outsider capaz de conter os gastos desnecessários na política, um discurso que tem muito apoio em setores que apoiam as políticas liberais no Brasil.
Essa percepção ganha espaço em toda a corrente anti politica que ganhou impulso no Brasil pós eleição do Bolsonaro em 2018. “O Brasil Dobrou a Direita”, de Jairo Nicolau, é um livro fundamental para entender o fenômeno do bolsonarismo em 2018. Revela um diagnóstico do perfil de seus eleitores originais: homem, evangélico, urbano, multiclasse. Que tinha como narrativa o combate à corrupção e a busca pela segurança pública.
Nesse contexto, a Plaza Pública avaliou a figura de Milei e parte de sua narrativa. Uma forma de entender como esse fenômeno repercute na sociedade brasileira. Estabelecer uma espécie de espelho para examinar as luzes e as sombras, para testar até que ponto esse discurso tem impacto sobre os brasileiros. Detectar como dialoga com o espaço que cavou o bolsonarismo.
O Plaza Publica utilizou como estimulo 8 frases de Javier Milei, para avaliar aderência/rejeição/nuances, assim como distintos “cards/emoticons” com desenhos minimalistas, para avaliar emoções associadas.
Seis insighst revelados:
- Percepção dicotômica. Ele é valorizado pelas mudanças econômicas que está promovendo, pela ideia de cortar gastos políticos (“É uma coisa que raramente a gente vê dentro da política. Geralmente querem aumentar os gastos públicos, né? Isso me chamou a atenção”). Ao mesmo tempo, seu perfil polêmico levanta dúvidas. A lembrança do escândalo das criptomoedas é baixa. Quem se lembra dele, coloca essa questão como um exemplo de “oportunista, alguém que se aproveitou de um espaço vago e criou um personagem”.
- Motoserrinha. Cortes na máquina pública, à brasileira. Há discordância com cortes maciços e discricionários nos gastos públicos, sem avaliar caso a caso. Os cortes na propaganda pública são valorizados, e é preciso avaliar quais devem ou podem ser feitos. Há um certo ressentimento/desconfiança de que esses cortes não podem ser feitos. “Vai deixar de construir uma creche…?” “Como assim, ficaria uma ponte no meio do caminho porque se suspende a obra pública…?” “Essa imagem do motosserra passa algo assim extremo. Vamos cortar, passar o facão. Ele promete muita coisa, promete um rojão. Mas na verdade é uma bombinha…acho um pouco fantasioso conseguir fazer isso….”
- A agenda radicalizada de Milei tem limites: uma recepção tropicalizada. Há fronteiras delimitadas do discurso de Milei no Brasil. Os direitos LGBTQ+ e o feminismo são causas defendidas no Brasil, direitos adquiridos que os paulistas e cariocas não querem negociar ou voltar atrás nessa agenda. No entanto, surge um problema para muitos, que essa defesa de direitos legítimos “passou do ponto”, em alguns casos transformada em uma imposição. Há uma crítica velada a um discurso politicamente correto que se estabeleceu em muitas áreas, que o bolsonarismo ataca com um espírito preconceituoso, mas que consegue permear em vários estratos como algo a ser pensado, a ser matizado. “A busca de igualdade do feminismo é necessária. A gente vê a diferença de salário que existe com as mulheres…” “A mulher busca sim um posicionamento de igualdade…” Quando estimulamos com uma frase dita pelo Ministro da Justiça de Javier Milei, Cuneo Libarona, avaliada como uma forma de testar o extremo desse pensamento. “Repudio a diversidade de identidades sexuais que não se alinham com a biologia…”. As reações negativas são eloquentes e mostram os limites desse discurso na sociedade brasileira. Prevalece a ideia de respeito, de ser uma frase não apenas extrema, mas que beira o maldoso, rompendo a barreira do aceitável no Brasil. “Ridícula, uma frase sem nexo nenhum… todo mundo tem que ser respeitado, independentemente da opção sexual…” “Estou rindo para não chorar. É desprezível essa frase…” “Essa frase é essa é criminosa, não concordo….”
- Entretanto, as ideias de cobrar de estrangeiros não residentes pelo uso de serviços públicos são controversas. Por um lado, desencadeia sentimentos de querer ordenar uma situação que, supostamente, não tem controle atualmente. Por outro lado, os brasileiros em outras partes do mundo experimentam limitações no uso de serviços públicos gratuitos, especialmente nos Estados Unidos. Uma espécie de reciprocidade buscada nesse sentido. Entretanto, há muitos que questionam a raiz dessa ideia, motivada tanto pela empatia humanitária quanto pelo entendimento de que o país precisa de turistas, que geram recursos, pagam impostos e, a partir daí, devem poder usufruir dos serviços públicos. “Os estrangeiros vêm para cá, fazem o que quer, aproveitam” “Você vê outros lugares. Não é assim que funciona não…” “Todo mundo é ser humano. Mas eu acho que deveria cobrar mesmo, né? Aqui o povo vem, faz o que quer nesse país… em outros países não é assim. Nos Estados Unidos não tem hospital público, você tem que pagar.” “Discordo totalmente dessa frase, porque da mesma forma que ele está no nosso país consumindo e pagando impostos também….”
- A chamada “ideologia de gênero” está amplamente consolidada como uma questão a ser combatida. O bolsonarismo criou condições e sedimentou uma ideia difundida no Brasil: a de que o debate sobre educação sexual nas escolas é nocivo, que leva a excessos e, em uma versão mais extrema, que é um assunto da esfera privada das famílias. Isso contrasta com as estatísticas oficiais que indicam que a maior parte do abuso infantil acontece no ambiente familiar. Novamente, contrastando com uma frase limitadora (“em sua versão extrema, a ideologia de gênero constitui abuso infantil”), os brasileiros rejeitam essa ligação. Não a raiz da ideia de que a ideologia de gênero é prejudicial, mas o extremo de associá-la ao abuso infantil. “Acredito ser muito invasivo é você expor, por exemplo, através de livros, os órgãos genitais das crianças…” “Criança tem que ser criança, entendeu? Tem tudo, tem essa hora e tem o seu tempo para se aprender….” “Ligar educação sexual a abuso infantil é uma coisa extremamente gritante para mim…..”
- Milei não é indiferente. Ela gera emoções mistas e viscerais. Estimulado por uma série de “cartões”, com emoticons positivos e negativos (8 de cada), surgem emoções positivas associadas às mudanças que ele está fazendo. Ao peso que ele carrega por conta da situação em que o país se encontra. E um fluxo afetivo intrínseco, que move as paixões negativas, de “louco”, “palhaço” a “imprevisível”. Há dois eixos que orientam o vínculo afetivo: a) Mudanças/Evoluindo/Determinado/Motivado/Superando um fardo pesado (imagens de quem está subindo). “Fazendo a mudança geral lá….” “Pode ser que que suba mais, evolua muito mais. “Significa que ele está subindo, juntamente com o país.” “Caminhando aí para melhoras.” b) Palhaço/Louco/Confuso/imprevisível (imagens de uma pessoa confusa/girando em seu eixo)“espantalho/palhaço…” “um maluco…esse cara só fala besteira, está doido?…“Tu vai ver que a carteira dele é de maluco, é muito doido…” “a primeira palavra que vem a minha mente é confuso….uma hora ele fala uma coisa, quando ele fala outra, tudo incerto…”
Conclusões/Implicações
- Há uma proximidade entre o público analisado e as posições econômicas em geral.
- Há uma clara decoficação e um componente local: eles precisam ser realizados de forma mais discutida, acordada, mais dialogada. Um espírito mais tropicalizado, mais amigável.
- A direita brasileira está órfã de um candidato natural. Com Bolsonaro impedido de ser candidato, há um espaço claro do eleitorado que apoia suas ideias, mas não há ninguém para herdar e capturar essa corrente. Entre aqueles que votaram em Bolsonaro em 2022 e hoje estão indecisos, uma variante “a la Milei” parece atraente. Ela representa boa parte do que eles pensam, tanto econômica quanto política e culturalmente.
- Os afetos gerados por Milei consolidam o que foi dito acima. Sua determinação e esforço para fazer mudanças são valorizados. Suas posições extremas, seu estilo quase “palhaço” para vários dos participantes, são uma fonte de relutância.
- O clima político no Brasil não é de ataque, de enfatizar o “racha”. Apesar do fato de que muitos participantes não conseguem sair desse quadro polarizador, eles preferem aplacar, superar esse momento. Milei, como uma figura visceral, representa mais a consolidação dessa polarização do que a possibilidade de resolvê-la.
* Plaza Pública é uma inciativa do Eduardo Sincofsky e Paulo Cidade: um projeto que toma o pulso de forma longitudinal a diversos indicadores da Opinião Pública e Agenda do Brasil.