Falta ao Brasil vender uma perspectiva de futuro

Eduardo Sincofsky

Pesquisas qualitativas indicam que classe política não dialoga com demandas do eleitor empreendedor.

Se contassem a um estrangeiro que o Brasil teve crescimento do PIB de 1,4% no primeiro trimestre, desemprego no nível mais baixo desde 2012 e, mesmo assim, que o governo enfrenta uma rejeição de 57%, haveria certa dificuldade para entender a lógica dos indicadores.

A equação não é simples de elucidar, mas há alguns elementos que ajudam a explicá-la. Lula sofre fadiga comunicacional, sua avaliação se deteriora e o incumbente não ajuda. Não é problema de má intenção, nem de alinhamento internacional a ditaduras ou posicionamentos sobre política externa. A disputa não é ideológica nem estritamente política.

O presidente não tem conseguido gerar afetos positivos, como fica claro nas respostas que ouvimos na pesquisa qualitativa do Plaza Pública, inclusive entre quem votou em Lula em 2022 e hoje se considera indeciso para 2026. Falta conseguir vender uma perspectiva de futuro.

Somada a isso, há certa dificuldade para dialogar com dois fenômenos. Existe entre os entrevistados a leitura de que a CLT, para ganhar um salário baixo, já não compensa quando se analisa o custo de vida. Perde apelo. Faz mais sentido, dizem, ir à informalidade e ter vários subempregos, fazer bicos. “Não há emprego de qualidade, não compensa ir a uma escala de 6×1 com um salário mínimo, trabalhar até a exaustão e ver que depois o dinheiro não rende para nada”, resumiu um dos entrevistados.

Essa leitura alimenta o segundo fenômeno, mais amplo e que ainda tem pouco respaldo na classe política. Há um novo conglomerado de autônomos-empreendedores que evidenciam outra lógica, um novo tempo — cenário parecido com o anterior à eleição de Javier Milei na Argentina. Estão o tempo todo em “modo recalculando”. São jovens de grandes centros urbanos, insatisfeitos com salários de empregos formais, que buscam alternativas muitas vezes alimentadas pela fantasia vendida pelo mundo digital: ganhar muito dinheiro em um curto espaço de tempo. Querem ser “donos do seu tempo”, apostar nas benesses imaginadas.

A realidade, no entanto, torna esse caminho sinuoso. Nem todos têm um plano, uma ideia concreta dos recursos necessários e dos percalços a percorrer. A transição do empreendedorismo de subsistência para a sonhada autonomia é complexa. O ponto-chave que o Plaza Pública pontua é: não há hoje na política brasileira quem dialogue com eles, alguém que coloque isso na agenda política. São pessoas que vivem uma montanha-russa diária, em alerta constante. E sonham alto.

A política não dialoga com eles nem no conteúdo nem no tom. Querem escutar outra história, outra narrativa: plano, projeto, futuro, dinheiro. A promessa da “picanha” não alcança ou diz pouco para este público. É um público que tem bolso de classe média baixa, mas estética e valores de classe média: querem comprar carro, viajar à Disney, ter um plano de saúde.

*Plaza Publica Brasil é um barômetro qualitativo bimestral realizado de forma conjunta por Eduardo Sincofsky e Paulo Cidade