‘São as emoções, mermão’: pesquisa qualitativa ajuda a entender a fundo decisões dos eleitores

Eduardo Sincofsky

Em artigo, diretor do Projeto Plaza Publica defende que é preciso ‘trackear’ sentimentos para entender como evoluem de forma complementar à avaliação do governo e intenção de voto.

“Não nos une o amor, e sim o espanto, será por isso que a quero tanto…”, dizia Jorge Luis Borges em 1964, um precursor para identificar esse sentimento coletivo, amor e ódio, como motor e obstáculo. A frase é uma boa metáfora do sentimento de boa parte dos brasileiros frente aos políticos, a definição pela alteridade, aquilo que não somos ou queremos ser.

A política é o reino das emoções. Encontrar respostas racionais em cada pergunta feita por pesquisas eleitorais quantitativas é uma fantasia, muitas vezes é olhar a superfície sem nos adentrar no que está no fundo do assunto. O que não quer dizer que sejam absolutamente necessárias, críticas para tomar uma decisão. No entanto, o foco está nas emoções. Em como sentimos o acontecer público e os políticos.

É uma verdade sabida na comunicação que as pessoas conseguem nos dizer parte do que sentem e pensam, dada a carência originária da linguagem: conseguimos dizer apenas aquilo que podemos nomear, e colocamos em palavras só uma parte do que pensamos e sentimos.

O Plaza Publica nasceu desse incômodo, de sentir que precisávamos entender a fundo quais são as emoções que definem e estruturam a política. Nos valendo do melhor que existe em técnicas qualitativas para capturar aquilo que não consegue ser dito. Precisamos “trackear” as emoções, entender como evoluem de forma complementar à avaliação do governo e intenção de voto. Ter uma sistemática nessa avaliação. Será que o incumbente mostra fadiga? Quais são as texturas que explicam os dados quantitativos?

A pesquisa de mercado utiliza há mais de 30 anos modelos de “Emotional Science”, que capturam territórios emocionais, utilizando técnicas sofisticadas, tanto na coleta, quanto na análise. Desde testes implícitos para “forcar” as pessoas a fazerem avaliações opostas, até frames analíticos baseados na psicologia junguiana que permitem mapear os sentimentos. No entanto, elas partem sempre de premissas e modelos teóricos, e logo testadas na realidade para marcas e serviços. São utilizadas pelas grandes corporações, com lógicas diferentes da tomada de decisão na política, mais próximas de uma empresa familiar, quase atendida pelo dono. O modelo pensado para medir emoções na política brasileira parte das verbalizações dos respondentes. A conceitualizarão vem a posteriori.

A retórica colérica, engaja, divide, faz as pessoas tomarem partido. Mais difícil é emocionar e persuadir os indecisos, produzir efeitos de sentido nesse público mais “moderado”, que hoje em dia não encontra um candidato natural, que está cansado da polarização, mas não consegue sair dela. É como um carro que fica atolado, quer sair, mas roda na lama.

Eles reconhecem a política como uma ferramenta para transformar a vida das pessoas, hoje vivenciada com desencanto. Ninguém acredita de forma animada que pode ser conseguida. Há ausência de certezas de quem pode vir a liderar essa transformação. Nenhum candidato apaixona. Todos nadam em águas de incertezas.

O nosso mapeamento de emoções representa uma cartografia afetiva na largada deste ano pré-eleitoral. Quatro territórios dos afetos na política: Esperança/Euforia/Decepção/Aversão. Usamos 40 imagens/cartões com desenhos e figuras, dos quais 8 são os que definem a análise. Lula, como era de imaginar, possui o maior caudal afetivo. Bolsonaro transita em águas de aversão. Tarcísio possui afetos mornos, próximos de um equilibrista com movimentos pendulares. Michelle Bolsonaro detém maior potencial afetivo, se comparado a Tarcísio.

Nos chacoalham mais sentimentos de uma construção coletiva, ou priorizamos maximizar nossa posição individual? Prevalece o sentimento de vingança e castigo ou nos norteamos pela busca de um ideal/inspiração? O que teremos em 2026? Surgira alguma nova alternativa para estes indecisos, que conseguira gerar afetos positivos? Ou teremos mais amor e espanto borgiano?

*Plaza Publica Brasil é um barômetro qualitativo bimestral realizado de forma conjunta por Eduardo Sincofsky e Paulo Cidade